Dante em neoprene: a minha prova de Verdon

Faz no próximo mês de setembro um ano que tomei conhecimento da prova “Verdon Swim Experience”, via redes sociais, a anunciar a abertura das inscrições no mês seguinte. Segundo a organização e o anúncio, é considerada a prova de águas abertas mais bonita da Europa.

Desconfiado por natureza, e perante uma afirmação tão ousada, decidi procurar mais. E fiquei rendido. Não sei se é a mais bonita ou não, mas é realizada num percurso com vistas de cortar a respiração. Em outubro, quando as inscrições abriram, inscrevi-me sem qualquer hesitação na prova dos 6K, e coloquei a mim mesmo o objectivo de acabar em menos de 2 horas (sem nenhum critério, talvez o da pura estupidez)

Comecei a treinar desde então, quer no ginásio, quer a nadar no mar, mas essa preparação teve de ser temporariamente interrompida devido a uma lesão no supraespinhoso em ambos os ombros.

Passada essa fase, ou seja, depois de receber alta da fisioterapia, descobri a Swim4Fun, que me ajudou a aprimorar a técnica e, por conseguinte, a evitar a propensão a futuras lesões semelhantes à que já tinha tido (ou a outras piores). Talvez esta “descoberta” tenha ocorrido tarde demais, pois estava a três meses da prova.

Entretanto, começou a época das provas, na qual participei das provas de Setúbal e Caxias (terminei os 3K em 1h2m, o que me levava a acreditar no objectivo acima mencionado), numa etapa da travessia do Zêzere, bem como de dois eventos do festival de treinos longos (4 e 6K). Essencialmente para perceber o “estado da arte” relativamente aos ombros. Embora a fisioterapeuta, já numa sessão pós-alta, tivesse afirmado peremptoriamente não ter qualquer inflamação e estar apto do ponto de vista articular e dos tendões, era certo que havia sempre uma “moínha”, especialmente nos primeiros 600 metros de cada vez que nadava.

À medida que o tempo passou, essa “moínha” foi desvanecendo; fui ganhando mais confiança até que chegou o dia da viagem para França.

Tendo chegado ao local da prova, os pensamentos e as emoções foram avassaladores. Todas as imagens da promoção correspondiam, na íntegra, ao que agora estava a contemplar. Um local idílico, que transmitia imensa tranquilidade. Mas à medida que o tempo passava e a hora de partida se aproximava, a tranquilidade desvanecia-se. O pensamento prevalente era: “Será que consigo? Será que as dores vão voltar? Isto é tudo muito bonito, mas não vou ter oportunidade de contemplar nada do percurso!”

Eis que chegou a hora! No meu set (sábado sunset, pois havia também sábado sunrise e sexta sunrise e sunset), éramos cerca de 600 participantes, divididos entre as provas de 3500 e 6000 metros. Na minha, dos 6000, nadávamos 2000 metros pelo rio, voltávamos ao ponto de partida e finalizávamos com 2000 metros ao longo do lago, com a meta noutra praia.

A partida era feita dentro da água. Cada participante passava por um posto de controlo para indicar a sua nacionalidade. Tendo-me apercebido desta dinâmica, deixei-me ficar no meio. Assim mesmo, estive à vontade, mais de dez minutos a “dar ao pezinho” e aos braços para nada. Tiro de partida dado, a confusão habitual- cotoveladas, puxões, bater de pés nos óculos nos primeiros 200 metros, até que aparentemente nos começamos a acomodar. Digo aparentemente, pois, ao passar a ponte, entramos efectivamente na Garganta de Verdon, onde o percurso afunila sobremaneira. Aí a vista avassaladora é posta de parte e entro em modo de sobrevivência plena até à viragem dos 3500 metros. A partir daí, a dinâmica muda por completo: muito menos gente, entra-se em piloto automático, começo a nadar em modo contemplativo, mas isso nem por isso significa ausência de desafios.

A partir dos 1200 metros, a temperatura da água passou repentinamente para 12 graus e, na viragem (2K), estava a 10 graus. Só pensava em nadar mais depressa para chegar a uma zona com temperaturas mais “normais”. Por essa altura, formou-se um grupo de cerca de 6 atletas que criou uma boa dinâmica, estilo ciclismo, onde “a lebre” alternava, e em que ultrapassámos um número significativo de atletas.

Por volta do 3º KM, ainda no rio, mas já com uma cãibra no dedo grande do pé direito, decidi tomar uma goma energética. Como demorava algum tempo a deglutir, mesmo sem parar, e a nadar de costas, perdi totalmente o contacto com o grupo. A partir daí, foi uma viagem solitária, por conseguinte, mais penosa. A atenuante foi que, após 1 km, entrei no lago, onde a temperatura já era de 21 graus. Como já estava em água quente e com a sensação de que me tinha atrasado, decidi não tomar mais nenhuma goma, o que acabou por se revelar um erro fatal.

Por volta dos 4,3 km, mais uma cãibra. Desta vez, mais irritante, mas ainda assim suportável — no músculo da canela (?!?! Sempre do lado direito). Segui o meu caminho, com os níveis emocionais e físicos a chegarem “à reserva”, e por volta dos 5,2 km acontece o golpe quase fatal- uma caibra paralisante no adutor direito. Aí, tive que vir à margem, sentar-me nas pedras (extremamente relaxante) e alongar-me para tentar aliviar um pouco. No entretanto, apareceu do nada um membro da organização, em SUP, a fazer-me perguntas em francês (que eu imagino que fosse para perguntar se estava tudo bem ou se queria desistir. Só um aparte — no set onde participei, os outros desconheço, quase metade desistiu ou foi desclassificada). Meio desesperado, meio raivoso e em jeito provocatório ao senhor que veio ter comigo (coitado que só veio ter comigo em meu auxílio), tomei meia goma e pus as “pernas ao caminho”, pois também não era por 800 metros que ia desistir.

As “pernas ao caminho” cedo se tornaram “perna ao caminho”, pois a cãibra voltou. Mas a raiva era tamanha que não me impediu de terminar a prova.

Acabei , cheio de espasmos, super feliz, com sentimento agridoce, pois o tempo foi de 2h19m. Mas ao ver o pôr do sol daquele sítio maravilhoso, tudo passa.

No livro “Divina Comédia”, Dante escreve que o caminho para o paraíso começa no Inferno. Acho que, neste caso, foi um caminho circular, tendo começado no Paraíso, passando pelo Inferno, e acabado no Paraíso.

Agora é já pensar na lista de paraísos (infernos) que pretendo fazer. Um deles, em particular, só o farei quando for grande e a equipa de Swim 4 Fun me ajudar — The Bosphorus Cross Continental Swim Race. Mas há mais,no curto e médio prazo.

Lições Aprendidas:

  1. Recolha o maior conjunto de informação possível: Não basta interpretar o percurso e as boias a circundar. É importante falar com outras pessoas que já fizeram anteriormente, para perceber rotas óptimas, principais desafios, ou outras informações que possam ser pertinentes.
  2. A toma das gomas/líquidos energéticos é fundamental: tal como na alimentação, não devemos comer apenas quando temos fome; a toma dos energéticos não deve ser feita quando os sintomas de cãibras já se avizinham. A partir de agora, em provas longas, de 50 em 50 minutos, vou tomar sempre. E em gel, pois é muito mais rápido. Gomas nunca mais.
  3. Manutenção de rotinas: Para quem, como eu, tem algumas rotinas (pequenos-almoços, suplementos, etc) penso que é crucial tentar mantê-las ao máximo; pois há uma, talvez a mais importante, que vai mudar de certeza — o descanso, uma vez que não estamos a dormir na nossa cama, no nosso ambiente habitual.
  4. Aprender a tolerar a dor: dentro de determinados limites, e em determinados ambientes, a dor pode fazer parte da prova e ser nossa companheira. Quero com isto dizer que o corpo aguenta mais do que aquilo que imaginamos e por isso não devemos desistir aos primeiros sinais “desconfortáveis”
  5. O tempo não pode ser a causa, mas sim a consequência: propormos objectivos a nós próprios é positivo. As variáveis exógenas (temperatura da água, correntes, vento, etc) são tão diversas que estabelecer um objectivo para uma prova torna-se num acto subjectivo. Passa quase por ser um acto de auto-inflição psicológica e emocional, para além da vertente física pela qual vamos passar. Especialmente quando começamos a ver que, durante a prova, já não o vamos atingir. O melhor é garantir que daremos o nosso melhor e, no final, quando chegarmos à meta, olharemos para os tempos oficiais. A ansiedade só nos vai atrasar.

Tiago Leitão

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