Nadar no Norte? Afinal é possível

Nadar no mar nunca foi opção. Aqui na região do Minho, apesar de viver a 20 minutos da praia, a água era fria, as ondas eram muitas e os agueiros estavam à espreita para levar quem se atrevesse. Nos rios ou albufeiras? Bom para uns mergulhos, mas nadar nunca. As histórias de afogamentos mais ou menos inexplicáveis deixavam qualquer um em alerta, até os que não faltavam às aulas de natação na piscina.

Bem sei, mais a Sul ou noutras latitudes, o cenário melhora. Mas nunca tinha tropeçado nessa vontade.

Aconteceu na minha primeira vez que me cruzei com o mar da ilha da Madeira, há quatro anos. Quando entrei naquelas águas azuis descobri um Atlântico que não conhecia, com temperatura agradável, com vida marinha, cenários lindos e em que nadar no mar era natural.

Crédito Fotos: Swim Madeira

No ano seguinte, regressei à ilha. Na praia da Ponta do Sol, vi ao longe nadadores. Percebi depois que estava a decorrer o Oceanman e que existiam humanos capazes de nadar 30 quilómetros de forma contínua. Uau.

E percebi que a tradição era grande. No Complexo Balnear da Barreirinha li sobre um tal de José da Silva “Saca”, um nadador de águas abertas que ali era descrito como uma lenda na ilha. Já mais atento, uns meses depois, li notícias sobre uma mulher que tinha acabado de dar a volta à ilha de Porto Santo a nado – e que já tinha feito a travessia entre o Porto Santo e a Madeira, sendo que entretanto não tem parado. Aplauso de pé, Mayra Santos!

Decidi voltar à piscina, mais de 15 anos depois de ter deixado a prática para me dedicar a outros desportos que adoro. Recomecei a nadar há três anos, sempre com vontade de enfrentar o mar, mas primeiro foi preciso nadar mais do que 25 metros seguidos. Consegui. Fiz as primeiras competições de águas abertas, em distâncias curtas, como um quilómetro ou mesmo 500 metros. Grandes conquistas, foi como descobrir um super poder. Mas queria nadar até mais longe e, por isso, continuei.

Descobri nesse processo que, mesmo no Norte duro, havia gente a nadar no mar e nos rios. Descobri que era possível nadar de forma segura e com prazer no rio Lima e em praias como Cabedelo, aqui tão perto, em Viana do Castelo. À boleia do Circuito Nacional de Águas Abertas, as descobertas surpreendentes continuaram por esse país fora.

Ainda nesta travessia, conheci a Swim4Fun e, em 2026, conquistei uma nova praia: Matosinhos. Mais do que isso, uma comunidade de pessoas que partilham comigo o gosto por nadar no mar. E como é bom nadar em grupo! A isso junta-se a partilha com o coach José Ferreira, um ‘extraterrestre’ das longas distâncias em águas abertas e uma inspiração para esta minha odisseia pessoal de nadar sempre até mais longe do que ontem. Sem esquecer como isto começou: a nadar em sítios lindos e sem stress – yap, swim for fun.

Pedro Gonçalo Costa

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