O que nos faz nadar no escuro?

O que nos faz entrar no mar à noite?
Mesmo sabendo que o corpo vai reagir. Mesmo sabendo que a mente vai tentar criar histórias.

No início, tudo o que eu via eram as luzes. As boias acesas, pequenas, flutuando na água escura. Elas pareciam segurança. Algo externo, ali para orientar, para proteger.

Antes de entrar no mar, houve preparação. A caminhada com respiração consciente, a atenção aos sentidos, o convite para desacelerar e realmente chegar. Depois, a yoga: alongar, aquecer, abrir espaço no corpo. Não era só sobre aquecer músculos. Era sobre criar condições internas para atravessar algo desconfortável.

Entrar na água à noite é um choque. O corpo responde. A mente tenta prever. Mas, passado o primeiro momento, algo muda. A escuridão continua ali, mas já não domina.

O ritmo, a respiração. O medo não era real. Confiar. Não lutar contra o mar nem contra a escuridão, mas mover-se com eles. Deixar que as águas de fora encontrassem as de dentro. Voltar ao centro.

Ali, nadar não era sobre desempenho. Era sobre continuar. E, muitas vezes, é isso que a vida pede da gente. Não grandes respostas. Apenas seguir, sentindo.

Em algum ponto, percebi que aquelas luzes não estavam ali para marcar posição. Pensei na bioluminescência. Em organismos simples que se iluminam quando se sentem ameaçados. A luz não aparece para afastar o escuro, mas como uma resposta natural à vida em movimento. Naquela noite, nossas boias acesas faziam exatamente isso. Cada pessoa com sua pequena luz e, juntas, tornávamos o escuro menos solitário.

Talvez seja assim também conosco. Quando nos sentimos vulneráveis, quando o medo aparece, algo em nós pode se acender. Não para negar o desconforto, mas para lembrar que pertencemos. Que não estamos sozinhos. Que podemos atravessar.

E havia o outro. O grupo. O cuidado silencioso, a sensação clara de companheirismo. As luzes não competiam entre si. Elas se somavam. A vulnerabilidade compartilhada criava algo raro: conexão real.

No fim, percebi que aquelas luzes que eu achei que vinham de fora eram, na verdade, um reflexo do que acontecia dentro. Pequenas luzes acesas no escuro, não para eliminá-lo, mas para seguir.

Talvez a pergunta não seja por que entramos no escuro.
Talvez seja: o que em nós se acende quando entramos?

Beatriz Dale

One Comment

  1. Que bonito Beatriz,

Responder a Mária Cancel

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