O Mar Que Me Cala

A minha cabeça é, muitas vezes, um lugar barulhento. Não tanto o barulho de fora, esse até consigo filtrar. É o de dentro. Os pensamentos que chegam sem pedir licença, as listas, as perguntas sem resposta, o zumbido de uma mente que não sabe parar. A maior parte do tempo vivo com esse som de fundo como quem vive perto de uma estrada movimentada: já nem repara, mas está sempre lá. Excepto quando nado. Debaixo de água, alguma coisa cala. Não sei explicar bem porquê. Talvez porque o corpo passa a ter demasiado para fazer para deixar a mente divagar. Talvez porque o ritmo da respiração, a resistência da água, o som abafado de tudo, criam uma bolha onde só existe o momento. Nado por isso, pelo silêncio.
Mas nadar na Reserva Natural do Garajau, na Ilha da Madeira, foi muito especial. Em parte pelo lugar, mas também por quem me acompanhou nesta aventura. Há algo muito particular em partilhar o que gostas com quem amas.

Naquele pedaço de Atlântico, a água não é apenas água. É transparente como vidro polido, azul de um tom que fica guardado na memória. Entrei devagar, não por medo, mas porque queria sentir cada centímetro da mudança e, quando meti a cabeça debaixo de água, percebi que o silêncio tinha cor. Tinha peixe. Tinha rocha coberta de vida, cardumes que não se afastam, luz a dobrar-se em ângulos impossíveis lá no fundo.
A minha cabeça, que raramente descansa, ficou quieta. Foram dois quilómetros assim: rodeados de peixes que não fugiam, rochas vulcânicas que desapareciam para o azul-escuro, e uma clareza de água que nos fazia sentir intocáveis.
É isso que procuro quando nado. Paz. A sensação de que o corpo sabe o que está a fazer mesmo quando a cabeça não sabe. E, muitas vezes, superação, não de recordes nem de distâncias, mas de mim própria.

Sofia Azevedo

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