
Houve uma altura em que esta prova era, para mim, completamente impensável e impossível. Um daqueles desafios que a cabeça arruma logo na gaveta do “isso não é para mim”. Com o tempo, acabou por se transformar primeiro num sonho distante e, um dia, numa conquista muito real dentro de mim. Os últimos três anos não foram simples. Entre paragens, problemas de saúde, lesões e fases em que praticamente não treinei, a ideia de enfrentar esta travessia parecia, muitas vezes, mais um peso psicológico do que um objetivo desportivo. Saber que não estava no meu melhor fez com que a gestão mental fosse tão dura quanto os quilómetros dentro de água. A “Grande Descida de Castelo de Bode”, com os seus 50 km, não foi, para mim, apenas uma prova. Foi um verdadeiro desafio ao corpo e à mente. Etapa após etapa, as paisagens eram simplesmente lindas, daquelas que quase dão vontade de parar de nadar só para ficar a apreciar o cenário. A temperatura da água estava um pouco fresca, mas nada de assustador – o suficiente para nos manter despertos, sem tirar o prazer da travessia. A minha história com a natação também ajuda a explicar o peso desta conquista. Comecei a nadar como federado em 2019 e fiz essa época completa. Depois veio a pandemia, com um ano e meio de paragens e incerteza. Regressei e ainda fiz mais um ano inteiro, mas no ano seguinte a faculdade passou para a linha da frente e o treino ficou para trás. Em 2023 mudei de clube e ainda treinei alguns meses, até que os problemas de saúde e outras lesões voltaram a baralhar tudo e se arrastaram até ao início de 2026. Entre idas e voltas, quando cheguei a esta aventura em Castelo de Bode já não treinava há quase dois meses e, antes disso, ia treinando apenas quando o tempo deixava. Por isso, posso dizer com alguma confiança que, às vezes, o mais importante não é estar no pico da forma, é perceber a técnica, conhecer o nosso corpo e dizer à nossa cabeça: “Nós vamos fazer e acabou.” Aceitei ir mesmo sem estar na melhor fase porque queria provar a mim mesmo que era capaz. Não me foquei nas opiniões dos outros – foquei-me na vontade de tentar. A vida, no fundo, foi feita para isso: tentarmos, mesmo quando o contexto não é perfeito. Houve uma prova em particular que marcou bastante este percurso. A minha família acabou por não conseguir estar presente e, por questões de logística, fiz cerca de 7 km sem comer nada depois dos 4,5 km. Foi esgotante, física e emocionalmente. Ainda assim, foi também um daqueles momentos em que percebi até onde o meu corpo – e a minha cabeça – conseguiam ir, mesmo com todos estes “extras” a puxar para baixo. A forma como lidei com o cansaço e com a falta de alimentação foi puramente guerra psicológica. O cérebro manda no corpo e, nesses momentos, a luta é mesmo interior: uma braçada de cada vez, sem pensar demasiado no que ainda falta. Na véspera dos 11 km, a última etapa, a ansiedade apareceu em força. A dúvida clássica instalou-se: “E se eu não for? E se não estiver preparado? E se não aguentar?”. Em vez de alimentar esse ciclo, decidi fazer o contrário: pus os fones, escolhi uma música que me acalmasse, desliguei do mundo e deixei-me adormecer. No dia seguinte, lá estava eu, à beira da água, ansioso e com medo, mas pronto para me atirar de cabeça para aquele que, até hoje, foi o maior feito da minha vida como nadador. E, curiosamente, hoje vejo que o medo também é importante: é ele que nos mantém alerta e atentos a tudo o que está à nossa volta. Mais do que uma sequência de quilómetros, a Grande Descida de Castelo de Bode foi uma conversa longa entre mim, o meu corpo, a minha mente, o meu passado recente e aquilo que eu ainda quero ser como nadador. No fim, a mensagem foi clara: mesmo quando tudo parece jogar contra, há sempre uma parte de nós que é capaz de ir um pouco mais longe. Se há algo que esta experiência me ensinou é que não devemos esperar a altura perfeita ou o ano perfeito para nos desafiarmos. Se não conseguirem, não conseguiram – e está tudo bem. Mas pelo menos tentaram algo que muitos nem sequer ousam tentar. E, às vezes, é precisamente aí que começa a verdadeira conquista.
Luís Correia
