
Tudo começou num passeio na Praia da Duquesa, em Cascais. Ia a passar e vi um grupo de senhoras, todas de touca azul, tão contentes dentro de água. Pensei: “O que é isto? Que grupo feliz é este?”
Dois dias depois lá estavam elas de novo. A curiosidade foi mais
te que a vergonha. Aproximei-me e perguntei o que era. Disseram-me que era natação em águas abertas, da Swim4Fun.
Fui para casa a pensar nisso. Pesquisei, falei com a Bibiana e marquei logo uma aula experimental. Sem pensar duas vezes, fui ao Decathlon comprar o fato de natação. E no dia 5 de janeiro, em pleno inverno, lá estava eu na Praia da Torre para a minha primeira aula.
A minha professora foi a Anabela. Foi super querida desde o primeiro minuto. E tive logo a primeira surpresa: eu que adoro dar mergulhos no verão e afundar-me, com o fato de natação não conseguia afundar! Ficava a boiar! Rimo-nos muito.
Ela pôs-me a nadar e no fim disse: “Rosa, vais para o nível 1.” E aí começou a aventura a sério.
Sei que no início assusta. A ferramenta toda, o fato, o mar no inverno, começar a nadar a sério… tudo assusta um bocadinho. E para mim assustou e custou muito.
Quando começava a nadar, eu não conseguia respirar. Era uma explosão. Nadava um bocadinho e tinha logo que parar. Ficava sem fôlego, parecia que os pulmões e o coração me saíam pela boca. Sofria muito. No início sofria mesmo muito.
A Anabela dizia: “Vá, hoje vamos até à casa amarela!” E eu pensava: “Como é que eu vou chegar lá se nem respirar consigo?”
Houve um domingo em que fomos só as duas, eu e ela. Demorei uma hora a fazer ida e volta à casa amarela. Na ida parei umas dez vezes. Na volta nem contei quantas vezes parei. E ela, com uma paciência de santa, sempre ao meu lado, só dizia: “Tem calma, Rosa, isso é normal. Vai com calma que tu consegues.”
Eu fui persistente. Não faltei a uma única aula, mesmo a sofrer tanto, mesmo com frio, chuva, vento e água gelada. E uma coisa é verdade: nunca, mas nunca, saí da água sem um sorriso na cara, mesmo a morrer sem fôlego.
Até que um dia aconteceu. Consegui chegar à casa amarela sem parar. Foi uma alegria gigante, indescritível.
Mal consegui isso, a minha colega Ana disse: “Vamos inscrever-nos para a prova de 750 metros em Setúbal?” Eu disse logo: “Estás maluca? Eu nunca!” Mas a Anabela disse: “Porque é que não vais? Tens um mês para treinar.” Cheguei a casa nesse dia e inscrevi-me.
Treinámos todos os domingos. Até que um dia a Anabela disse: “Vocês sabem que hoje acabaram de fazer 750 metros?” Nós nem tínhamos dado conta.
Chegou o dia de Setúbal. Muitos nervos, muita adrenalina. Deu o sinal de partida e lá fui eu. Nadei e consegui chegar ao fim. Foi uma sensação de troféu que vou guardar para o resto da vida. E entrei de mão dada com a minha grande amiga Catarina Pinheiro, como se tivéssemos ganho a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Foi lindo.
Depois de Setúbal começou outra aventura: a técnica.
A Anabela tinha-me dito: “Quando vieres de Setúbal, eu vou-te ensinar a nadar a sério.” E começou: “Rosa, abre bem os braços, põe o cotovelo assim alto…” Ela estava sempre a refilar comigo: “Abre os braços, Rosa, abre os braços!”
Eu tentava fazer tudo ao mesmo tempo e depois dizia-lhe: “Anabela, fiz tudo o que disseste, mas esqueci-me de respirar!”
E houve uma coisa muito importante para mim. Quando eu começava a conseguir fazer um bocadinho melhor, ela dizia: “Tá top, Rosa, tá top!” Aquela palavra “top” era top! Era um miminho, era encorajador. Para mim valia tudo. Quando ela dizia “tá top” eu ficava tão contente, parecia que já sabia nadar!
Bebi muitos pirulitos, Bibi! Foi uma aprendizagem muito divertida.

Até que um dia, de repente, tudo encaixou. Estava a nadar e comecei a sentir o meu corpo a deslizar no mar. A deslizar mesmo. Foi uma sensação maravilhosa, mágica. Percebi que já não estava a lutar contra o mar. Estava a fazer parte dele. Nesse dia tudo mudou.
Isso viciou-me. Comecei a ir duas vezes por semana, depois três, depois quatro vezes por semana. Comecei a dar voltas à minha vida só para conseguir ir nadar. O mar começou a chamar por mim.
Depois veio o desafio dos 2,5 km da Travessia António Bessone Basto, em Oeiras. Quando me falaram nisso eu disse: “2.500 metros? Eu não consigo!” Disseram-me: “É fácil, apanhas uma corrente que te leva.” Eu não acreditei, mas inscrevi-me. Fui com muito medo, mas fui. E consegui.
A prova mais dura que fiz até hoje foi a de Albufeira. Foi muito, muito dura. Quando entrámos dentro de água, de repente o mar começou a levantar. Veio tudo ao mesmo tempo: ondas, vento, correntes.
Passado um quilómetro pensei: “Acho que não vou chegar ao fim.”
Mas depois ouvi a minha voz cá dentro a dizer: “Rosa, desistir não existe no teu vocabulário. Agora vais até ao fim.” E fui. Cheguei ao fim muito, muito contente.
Entretanto passei do nível 1 para o nível 2. É diferente, as técnicas são diferentes, mas estou a gostar muito e sinto que estou a evoluir. Continuo a ser persistente.
Agora não tenho ido tanto às aulas porque os horários não têm dado, mas continuo a nadar. Vou sozinha ou arranjo sempre uma amiga para ir comigo. O mar continua sempre comigo.
Mas o que a natação em águas abertas mudou mesmo na minha vida foi muito mais que os metros.
Há quatro anos morreu o meu marido. Durante três anos eu parei um bocado de viver. Perdi a vontade de viver. Fechei-me.
Ao encontrar a Swim4Fun, a minha vida mudou radicalmente. Sou outra pessoa. Tenho vontade de viver, estou mais ativa, mais alegre, tenho sempre um objetivo para o domingo.
Tenho vontade de falar com as pessoas. Antes estava mais fechada. Agora não. Virei a Rosa outra vez. Estou sempre bem disposta. A natação em águas abertas mudou-me muito.
Queria deixar aqui um agradecimento do coração.
Quero agradecer à minha professora, à minha super coach Anabela. Aqueles 5 minutos de conversa que tínhamos no fim das aulas, com muito frio, ali a tremer a tirar o fato de natação no inverno… Se ela soubesse o bem que me fez à alma e ao coração. Não há palavras para lhe agradecer. Quero agradecer de todo o meu coração.
Quero agradecer também à Bibiana pela paciência que tem comigo, porque eu às vezes não sou fácil, e à professora Letícia também, que apareceu há pouco tempo mas que também tem sido uma querida e tem tido muita paciência comigo.
Quero agradecer aos meus colegas do nível 1, que estiveram comigo no início. Foram muito importantes nesta fase da minha vida, aquela força que davam, aquelas brincadeiras que tínhamos sempre a seguir à aula, a rir.
E por fim, agradecer a toda a comunidade da Swim4Fun. A todos com quem já nadei, com quem já me diverti, com quem converso, com quem rio, com quem já fomos às atividades e nos divertimos tanto. Agradecer a todos, por tudo.
Obrigada.
Do não conseguir respirar à casa amarela. Do luto à vontade de viver. Virei a Rosa outra vez.
Rosa Coronha

