
Este verão fui a Aalborg, no norte da Jutlândia, passar uns dias em casa de uma amiga.
Comecei a nadar em Maio e desde aí a natação tornou-se uma das minhas principais atividades físicas. Como não queria interromper, lembrei-me que podia nadar na Dinamarca. O problema é que nunca lá tinha ido, e nadar sozinha num lugar que não conheço não me parecia grande ideia. Pensei em juntar-me a algum grupo.
Procurei online e encontrei o Tour de Egholm, uma travessia do Limfjord até uma ilha ali ao lado. Enviei uma mensagem ao organizador, o Johnni, a explicar que vinha de Portugal, que nado há uns meses, e perguntei se podia juntar-me.
Ele respondeu no mesmo dia: Claro, podia! Explicou-me que era um encontro com uma travessia de dois quilómetros e que o fato ficava ao meu critério, porque a água estava a 20 graus.
No sábado de manhã éramos um grupo grande na ponte-cais de Lindholm. Boia-saco e touca de cor viva obrigatórias, e a roupa entregue a um barco que a levava para o outro lado. Levei a minha touca do Swim4fun e expliquei-lhes que era de um clube em Cascais, em Portugal. Era a única portuguesa no meio de toda aquela gente. Havia também um alemão que estava de férias e decidiu juntar-se. Mais tarde disse-me que vem a Portugal em outubro, e desafiei-o a nadar connosco nesses dias.
A água não estava a 20 graus. Estava bastante mais fria, e senti-o logo nos primeiros metros. Muita gente tinha fato, mas muita gente não tinha, e foi isso que mais me impressionou. Os nórdicos aguentam mesmo muito melhor o frio do que nós. Continua a ser a minha grande preocupação para o inverno: como é que vou nadar com aquilo tudo tão frio.

O início foi animado. Deram-nos as instruções de segurança e partimos acompanhados por caiaques e SUPs. Havia pessoas de ritmos muito diferentes e eu consegui apanhar um bom ritmo desde o princípio.
A uns 500 metros da ilha mandaram parar. O ferry que liga Aalborg a Egholm vinha a atravessar exatamente por onde nós íamos. Os SUPs e os caiaques juntaram-nos todos num grupo e ficámos ali a flutuar, à espera que o barco passasse. No mínimo, uma experiência estranha.
Estava a gostar tanto que nem dei pela distância. Quando saí da água e olhei para o relógio tinha 2,7 quilómetros. Nunca tinha feito três quilómetros. Se soubesse que a distância andava perto disso, teria hesitado em juntar-me ao grupo.
A chegada foi excelente. O tempo estava fantástico e fomos ficando à espera dos grupos que ainda vinham a caminho. Toda a gente falava comigo em inglês, e acolheram-me e incluíram-me em tudo.
O almoço foi no restaurante da ilha, onde provei stjerneskud, uma sandes aberta dinamarquesa com solha, camarão e espargos. Deram-nos medalhas comemorativas, com o recorte da ilha e o nome dela, Egholm, que vou guardar para sempre.

Do outro lado da zona de conforto
Aquele grupo nada em conjunto todo o inverno, mas no verão cada um nada por sua conta. O Tour de Egholm é a única vez no ano em que se juntam todos. Eu calhei estar em Aalborg nesse sábado, escrevi uma mensagem a um desconhecido, e eles acolheram-me como se eu fizesse parte daquilo há anos.
Fiquei em contacto com o Johnni e com outros nadadores, e já me convidaram para a travessia do próximo ano, que já tem data. Espero levar mais colegas do Swim4fun e quem sabe começar uma tradição nova.
No ferry de volta percebi que há mesmo amigos em todo o lado, e que do outro lado da zona de conforto estão experiências que ficam para a vida.
Maria Ribeiro Soares
