
É verão. As praias estão cheias de banhistas e, na praia da Princesinha, coberta de chapéus de sol, já não há espaço para mais ninguém. No café que, no inverno, se enche apenas de nadadores de águas abertas atrevidos — e dos seus sacos de roupa espalhados pelo chão debaixo das mesas — a Vanessa está a ficar louca com tantos pedidos diferentes.
— Oxalá fosse novembro… — suspira ela entre um abatanado, um café americano, uma tosta mista e sabe-se lá mais o quê, olhando para os dois amigos reformados que todos os dias ocupam a mesinha logo fora do café.
Um deles é nadador-salvador, com a cara queimada pelo sol de tantos anos de praia; o outro é um ex-nadador, dos primeiros que atravessou, sem fato de neopreno, a costa ali ao lado.
A Vanessa simpatizava muito com eles e deixava-os ficar ali a jogar à sueca com outros clientes ou ao xadrez, entre um grito e outro a dizer que o xeque-mate não estava certo e que o outro tinha tentado aldrabá-lo enquanto bebia o mazagrã.
A Vanessa já conhece todos os nadadores também. Sabe quem deixa as chaves do carro ao balcão, quem guarda ali o roupão para se trocar depois da aula e quem aparece após o treino para beber um galão quente, pôr a conversa em dia com outros alunos e amigos e, quem sabe, ficar para um almoço de peixinho fresco.
Foi numa dessas idas e vindas a entregar pedidos que ouviu uma conversa estranha: alguns nadadores iam fazer uma travessia em pleno mar, entre duas ilhas. Não percebeu bem o que isso significava. Já lhe parecia uma loucura nadar tantos quilómetros na baía de Ponta Verde, no inverno — quanto mais nadar fora dali, em mar aberto, com ondas e correntes imprevisíveis.
Por curiosidade, foi espreitar no Maps. Quando viu a distância que aquela malta se preparava para nadar, achou um disparate de todo o tamanho. Ainda assim, algo naquele lugar começou a despertá-lhe interesse. Lembrou-se de ter ouvido, quase por acaso, que no ano anterior algumas pessoas tinham desaparecido naquela zona… e que tinham sido encontradas vivas por nadadores, em circunstâncias estranhas.
A Vanessa, que sempre tivera uma queda por histórias de suspense, começou a procurar mais detalhes sobre esse episódio. E uma pergunta não lhe saía da cabeça: será que os nadadores que iam fazer a travessia conheciam essa história?
Quem seriam eles?
E quais seriam, afinal, os nomes das ilhas?
Chiara Bedini
