
Chego ao fim desta época de águas abertas com um sentimento agridoce. Foi uma época muito diferente do habitual: o verão nem vi passar, faltou tempo para tudo… para treinos, provas, conversas e a minha dupla. Mas, quando pude estar presente, foi intenso.
O meu modo de ver o “nadar” transformou-se muito ao longo das três épocas que fiz no circuito nacional. Em todas elas, o 3.º lugar me acompanhou — mas nem de longe os sentimentos foram os mesmos.
Havia um medo que antes de entrar na água me dominava. A sensação era sempre a mesma: Por que me meti nisso? Para que estou aqui? Por que ainda faço isso? Será que termino?
Com o tempo, saí desse estado e passei para um simples: Ok, é entrar e nadar… o tempo a gente vê depois. O frio na barriga e o receio mantiveram-se, mas de outra forma; mesmo que a cabeça tentasse pregar peças, o corpo já sabia o que fazer e não dava muita atenção a esses pensamentos. Mas eles sempre estiveram ali.
Já nem sei qual foi a última prova de onde saí dizendo que não gostei, que não me sentia bem ou que estava muito difícil. Nadar passou a ser, simplesmente, “nadar”. O meu corpo sabe o que fazer. A minha mente entende o que isso significa.
Se a corrente não ajudar, se o vento atrapalhar, se as ondas dificultarem a respiração, se a boia não estiver visível, se houver muita gente a atrapalhar no bolo ou até se a cabeça estiver a vagar… nada disso paralisa mais. Nadar passou de um modo de alerta extremo para um estado de flow físico e mental.
Deixei de tentar controlar tudo à minha volta. Deixei de estar hiperatenta a cada pessoa ou animal marinho ao lado só para saber o que fazer se algo acontecesse. Passei a desfrutar da vida marinha, a não me desesperar com o imprevisto e a entender que, se eu apenas deixar ir, tudo se encaixa.

Essas três épocas de águas abertas fizeram-me perceber que a “alta performance” na nossa mente não é o controlo total de cada braçada, não é ter todas as respirações perfeitas ou uma orientação impecável. É sentir-se no mar, aceitar o que está desalinhado e ajustar na braçada seguinte.
Fecho esta época não apenas com um lugar na tabela, mas com a certeza de que a água deixou de ser um campo de batalha contra as minhas incertezas para ser o meu lugar de paz. Não é desligar-me do que acontece à volta, mas sim saber que sou capaz, conectar-me e fazer o que sei fazer: apenas “nadar” — porque, aconteça o que acontecer, o corpo sabe o caminho.
Não fiquei mais rápida, não entrei na água para fazer tempos; esta época foi de superação, para ajudar a mente a entender o seu lugar. Foi uma época de resistência. E agora é dar o próximo passo e definir os próximos desafios…
Mayra Gabriela

