Durante muito tempo, Alcatraz foi para mim uma espécie de mito: a prisão de onde era mais difícil fugir. Nunca me tinha passado pela cabeça que um dia ia fazer esse caminho, da ilha até à cidade, a nadar no meio da baía de São Francisco. Mas foi precisamente isso que fiz no dia 19 de setembro.
Estive em São Francisco de 7 a 19 de setembro. Foi a minha primeira vez na Califórnia e a primeira visita à cidade, e confesso que o pretexto foi uma conferência. A ideia original era estender a parte profissional da viagem com uns dias de turismo, e foi isso que acabou por acontecer: a segunda parte das férias foi passada a visitar alguns parques naturais dos Estados Unidos e a acampar na natureza. Foi espetacular, mas isso fica para outra altura.
Quando estava a planear a viagem com uma amiga, descobrimos que havia em São Francisco um clube de águas abertas, o Dolphin Club, que nada numa das poucas praias da cidade onde, apesar de tudo, existem condições para isso. Já contei essa história noutro texto aqui no blog. O plano, na altura, ficava por aí: umas banhocas na “banheira” de São Francisco.
Uma inscrição fora de prazo
Só quando lá estava, e comecei a investigar um pouco melhor, é que percebi que ia haver uma travessia de Alcatraz: a Pedro Ordenes Memorial Alcatraz Swim – o Pedro era um swim coach de águas abertas originário do Chile, que era conhecido na região pela sua simpatia, e por ter levado muita gente para as águas abertas e que tinha morrido precocemente de cancro. Pelo que pensei: “Olha, porque não? Já que aqui estou, quantas vezes é que isto vai acontecer? Quando é que voltarei a ter a possibilidade de fazer uma coisa destas?”
Mas hesitei. E hesitei bastante, durante vários dias. Fiquei na dúvida se devia gastar aquele dinheiro, porque, sendo um memorial swim, o valor da inscrição era bastante superior ao habitual, mesmo para uma travessia com esta logística. Além disso, a prova calhava no meu último dia em São Francisco, o que me obrigava a ir para lá de manhã, deixar as coisas no hotel e depois pegar em tudo e seguir para o aeroporto.
Como normalmente me acontece nestas coisas, só ganhei coragem depois de o prazo ter terminado. Tentei inscrever-me e o site já não deixava. Seguiu-se a corrida do costume: emails para a organização, mensagens nas páginas de Instagram, até que lá consegui falar com o Jeff. A resposta foi qualquer coisa como: “Vou abrir isto só para ti. Despacha-te lá e faz a inscrição.” Assim fiz.

Mensagem do Jeff
Se há uma coisa que trago desta viagem aos Estados Unidos é a simpatia com que fui tratado em todo o lado. E não é só simpatia, é uma certa prestabilidade das pessoas para ajudar, para facilitar, para criar condições. Isso surpreendeu-me. Ali existe uma capacidade de servir o cliente e de arranjar soluções. Não é que as regras sejam ignoradas: é que as regras são indicativas, servem para melhorar a vida das pessoas, e não o contrário.
Tubarões, nevoeiro e um despertador às 4h30
Na noite anterior mal consegui dormir, o que também me costuma acontecer nestas ocasiões. Talvez pelo nervoso, talvez por várias outras circunstâncias, dei por mim a pensar nos “worst case scenarios”, a malta com quem falava sobre isso, só me dizia “és maluco! ou ““tem, mas é cuidado” ou, “olha que no ano anterior houve um tipo que ficou tetraplégico” (infelizmente verdadeiro) ou até que me ia perder no nevoeiro. Acordar às 4h30 da manhã não foi fácil.
Apanhei um Waymo, um daqueles carros sem condutor que circulam em São Francisco, uma espécie de Uber sem ninguém ao volante, que é super prático e funciona muito bem, para estar no Aquatic Park às 6h00. Comigo ia o Raphael, o meu filho mais velho, que consegui convencer a vir ter comigo a São Francisco, depois de terminada a parte profissional da viagem e que acabou arrastado para fazer as fotografias da travessia!

As bancadas do Aquatic Parc, onde nos equipámos e fizemos o check-i para a prova.
O programa era apertado. Check-in às 6h00 nas bancadas do Aquatic Park, briefing às 7h00, e depois lá seguimos pela Jefferson Street até ao ferry e às 7h30 estávamos a embarcar. O barco era, literalmente, um cacilheiro vermelho, onde cabiam os 150 atletas mais a organização. Só que este não ia para Cacilhas. É ferry para Sausalito, por isso em Portugal chamar-se-ia um “sausaliteiro”.
Na viagem de ferry, o ambiente foi muito bom, mas com aquela tensão no ar. Já alguma vez pensaram: “mas o que é que eu estou aqui a fazer?” Havia quem já tivesse feito aquilo oito vezes e havia quem estivesse lá pela primeira vez, alguns super nervosos. Apesar de eu também ser novato nesta aventura, tentei ajudar da melhor forma que pude.

A ida de ferry para a ilha de Alcatraz
O ferry levou-nos até umas poucas dezenas de metros de Alcatraz, numa zona onde já há profundidade suficiente para saltarmos do barco. Imagino que haja questões administrativas com a ilha e, na prática, a distância a nadar é a mesma. O salto em si foi mais desafiante do que eu pensava, porque os óculos tendem a sair com o impacto. A organização tinha avisado, e foi exatamente o que me aconteceu 🙂

A ilha e prisão de Alcatraz, onde nunca nenhum prisioneiro comprovadamente conseguiu escapar.
Nadar contra o Pacífico
A partida já passava das 8h15 . O dia estava cinzento. Não diria nevoeiro, mas a visibilidade não era fantástica, e entre Alcatraz e São Francisco há, curiosamente, poucos pontos de referência: o edifício da Ghirardelli, a antiga fábrica de chocolate, e alguns prédios residenciais mais lá atrás. Tive de navegar com cuidado para não perder o meu rumo.

Foto tirada pelo meu filho Raphael, com a sua câmara de filme preto-branco, do meu alegado salto para a água.
Mesmo assim, fui muito mais carregado pela corrente do que estava à espera. A força do Pacífico a entrar na baía é brutal. E passou-me pela cabeça desistir depois das primeiras braçadas daquela milha e meia em que acabei por fazer uma espécie de meia-lua, em que a dada altura percebi claramente que estava a sair da rota. Acabei a nadar praticamente paralelo à costa para conseguir entrar na baía do Aquatic Park, e terminar a travessia.
Acabei por ficar em 26.º lugar da geral, em 116 participantes. Dadas as circunstâncias, não está nada mal.
Novato, mas não sozinho
Terminámos com bebidas quentes, a cerimónia de entrega de prémios e eu a comer um donut que uma das pessoas da organização simpaticamente me ofereceu.

A devorar o dounut e junto à bandeira americana!
Andei vários dias a perguntar a mim próprio se devia gastar aquele dinheiro, se valia a pena complicar a logística do último dia, se não era melhor ficar pelas banhocas. Acabei por responder que sim já fora de prazo, e só porque do outro lado houve alguém disposto a abrir uma exceção. Quantas vezes é que isto vai acontecer? Provavelmente, poucas. Ainda bem que não a deixei passar. E já agora, conseguimos angariar mais de 10000 dolares para o fundo Pedro Ordenes de luta contra o cancro. Que bem hajam os muitos “Pedros” que nós conhecemos e que nos inspiram a nadar, mesmo contra a corrente!
André Marquet
