Adeus fato – abracem o frio

Iniciei a época de natação sem fato. A água já está a 16 graus. O frio desafia-nos, mas não é só a nível físico, é acima de tudo mental. Abandonar a proteção artificial é uma decisão. O primeiro contacto com a água fria pode ser um choque. A pele contrai-se, a respiração transforma-se em hiperventilação e o instinto diz para desistirmos, é o corpo a lembrar-nos que somos frágeis. Resistindo a este primeiro impulso, se abraçarmos o frio e deixarmos de lutar contra ele, a magia acontece: o corpo adapta-se e a respiração encontra o ritmo certo. O frio torna-se numa presença familiar e sentimos a água como parte de nós. Sentimos melhor as ondas e a corrente, e as mudanças de temperatura que são constantes. Há uma ligação maior entre nós e a natureza, uma liberdade em nadar sem fato (além do melhor: não ter que pô-lo e tirá-lo). Não é uma discussão que se ganhe com argumentos porque os estudos provam várias vantagens de nadar com fato em longas distâncias (segurança e proteção, melhor flutuação, biomecânica e menor risco de hipotermia em águas frias), é mais uma escolha pessoal de desafio, de gosto, de como queremos viver a nossa vida com o mar.

Quando saímos, o corpo pode tremer e a pele fica arrepiada, mas a energia é impagável. Ficamos felizes com a nossa capacidade de adaptação, e há aquela sensação de vitória. O frio do mar lembra-nos de que estamos vivos, de que sentimos, e de que a liberdade muitas vezes exige um pequeno desconforto. E depois, todos dizem: “que coragem ir sem fato…” o que dá uma certa satisfação, mas o que conta mesmo é sentirmos a harmonia do corpo com o mar e a energia com que ficamos.

Já estão 16 graus, experimente, não custa nada … só um pouco, mas só no princípio…

Sofia Guedes

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