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← Blog6/11/2026 · Chiara Bedini

Um dia quero ir à Ilha d’ Elba fazer uma travessia

Num dia de tédio há uns quantos anos atrás, comecei à procura de provas de natação em águas abertas em Itália. Já tinha participado, com um grupo de amigos de Lisboa, numa prova do Oceanman no lago d’ Orta, em Itália, mas pensei que também tinha que haver outras provas mais acessíveis, eventualmente com nome menos sonante, mas igualmente bonitas ou até mais desafiantes que essa.

Interessava-me em particular algo na minha região, a Toscana, e, para mim que sou amante das ilhas, estava ainda mais curiosa em experimentar uma no arquipélago toscano: Ilha del Giglio, Elba, Giannutri, Pianosa, ou mesmo Capraia. Pensava para comigo numa prova não demasiadamente longa mas também não demasiadamente curta. Eu queria aquela distância que bate certo com o nosso desejo do momento: fácil, não é?

A situação estava afunilar-se bastante, além disso, não há uma organização tão centralizada como em Portugal, coisa que, no início, dificultava a pesquisa.

Depois de várias procuras encontrei o site que tenta resumir todas as provas em Itália, das mais mixurucas às maiores: anatre selvagge, eles tentam juntar as provas nacionais e algumas internacionais de relevo.

A partir de aí, cheguei finalmente a uma prova na ilha d’ Elba. Isso foi praticamente há uns 4 anos atrás. É uma prova numa aldeia pitoresca e piscatória chamada Marciana Marina, há várias distâncias dessa travessia, a partir dos 4, 6 e 12 Km e ,no dia a seguir às provas principais, há a estafeta e uma prova para crianças. Tudo organizado por uma associação chamada “Abbracciamoli” (trad. “abraçamo-os”) e onde o proveito reverte inteiramente para crianças que tiveram leucemia porque, como diz o slogan: a cura não termina quando se sai do hospital, e o apoio que as famílias e as crianças precisam é mais do que muito. Essa componente social também agradou-me e logo pensei “qualquer dia farei essa prova”.

Ficou por aí, no baú das provas, e cada ano olhava para aquilo e dizia: se calhar, para o ano, vou inscrever-me... Na verdade, acabava para coincidir sempre com eventos no trabalho e nunca dava realmente.

Mas este ano, já em Janeiro, decidi que iria participar fosse o que fosse. Não sabia como ia correr o meu treino, não sabia se conseguiria fazer os 6k, mas pensei firme que o momento tinha chagado. Ainda para mais, estava marcada logo na primeira quinzena de outubro, quando o tempo costuma estar ainda bom por aquelas bandas.

A logística para chegar lá não é fácil: avião até Pisa, a minha terra, depois de carro até Piombino, depois o ferry até Portoferraio (a capital da Ilha), e ainda o autocarro até Marciana Marina.

Mas como eu amo essa ilha onde ia quando era mais nova à casa de amigos nas praias de Portoferraio, a viagem soube-me a férias e o ferry deu-me mais uma vez aquela sensação da viagem de verão, de ir para algum lugar longínquo à descoberta de novas sensações, embora a viagem seja só de uma hora, a cabeça já começa a navegar.

A minha irmã acompanhou-me e foi bom porque ela acaba para se documentar acerca da parte histórico-cultural: os palácios de Napoleão Bonaparte que foi exilado lá e a um certo momento da sua vida acabou para tê-la debaixo do seu domínio. As torres pisanas de avistamento que foram construídas para se defenderem dos piratas franceses. As aldeias de montanha (Marciana e Poggio) , a funicular até o monte mais alto da ilha (Monte Capanne-1000m), a vila piscatória de Marciana que foi repululada no princípio de 1900 com pescadores de Nápoles e do sul de Itália, o típico bairro de Cotone com casas coloridas, ruelas, e vista mar. A vila é tão bonita que várias vezes foi escolhida como lugar para séries da TV com o cheiro a Toscana marítima, com o mítico “Bar Lume” cenário duma série inspirada a uma saga de velhotes detectives jogadores de cartas dum café no pinhal em estilo toscano que adoro (de Marco Malvaldi).

Até aqui tudo bem, faltava só um pormenor, era uma travessia e o lugar da partida ficava a 35 minutos da terrinha, e os nadadores tinham que se descolar em autonomia. Se tinha chegado até lá, achei logo que dalgum jeito me ia safar. No dia da entrega do dorsal, comecei a perguntar aos vários participantes, a maioria italianos, mas com alguns estrangeiros que têm segunda casa lá. E por fim, um professor de natação dum clube do Nordeste italiano, perto de Veneza, confirmou que me ia dar boleia.

A entrega dos dorsais acontecia na praça principal onde tudo era decorado a festa, com bandeirinhas e mesas todas á volta para dar a bem vida aos nadadores. Os participantes não eram muitos, e eram pela maioria de clubes do norte de Itália, se calhar porque a associação é de lá, e a maioria já tinha participado nas edições anteriores.

No final da tarde passeando ao longo do mar, e olhando para a baía, o vento mudava a cada dois por três, o mar estava bastante ondulado, e nos comentários os locais diziam que estava bem esquisito. Outras pessoas da organização tinham falado que o dia à seguir iria melhorar. Ficou a dúvida, mas como sempre chutei-a para o lado e alegre e feliz preparei tudo para o dia à seguir.

O facto de não ter nadado nunca nesse lugar, não conhecer nem correntes, nem o efeito dos ventos na ondulação, naquele momento não era grande preocupação. Também sempre ouvi dizer que o mar mediterrâneo é traiçoeiro, mas também parecia que o meu cérebro assobiasse para o lado também a isso.

Em boa verdade a alegria de poder nadar nessas baias tão lindas emoldurada na vegetação frondosa mediterrânica, fez-me esquecer todos esses detalhes.

O Dia chegou, e de viagem com os do clube de Iésolo até à praia de Énfola, comentámos todos que o mar parecia calmo, uns deles, todos mais velhos que eu, a dizer que iriam devagar e estavam a contar com umas 2,5 horas para os 6k, outros que já tinham feitos ironmans e várias competições até de maior distância iriam tentar um tempo melhor.

Muitos mais nadadores juntaram-se e como antes de todas as provas fui beber um café, e desta vez com uma moça da organização. Ela contou-me de como essa prova tinha chegado à Ilha d’ Elba, de como o presidente e a mulher que tinham tido uma filha com leucemia, e dai viram a necessidade de dar apoio a outros pais, de como a conheceram a fazer diving na ilha, no centro de mergulho que ela geria, e como anos mais tarde, por uma estranha ironia da sorte, ela própria teve leucemia, e como eles cuidaram dela no hospital em Milão quando precisava de mais ajuda, longe da família, do filho e de todos os afetos. Vi a força interior dela e de como envolver-se nessa organização lhe fizesse bem para ultrapassar algo maior que ela. Triste sim, mas a forma como ela falava e da entrega e gratidão que ela tinha para esse evento, foi algo bem marcante.

Deu-se o apito inicial, os 40 nadadores saímos ao mesmo tempo, fiquei logo para trás com uns poucos nadadores. As canoas eram poucas e as boias localizadas bem longe da costa não ajudavam nada na trajetória, a única referência real era a ponta antes da baia de Marciana Marina, a 5.5km...As ondas começaram a crescer de improviso logo à seguir da praia de Énfola, vinham de nordeste, depois de norte depois de nordeste outra vez, puxavam de lado contra a costa e para trás. Tinha comido um gel, uma “crostata” partilhada dos nadadores de Iésolo e uns frutos secos antes da prova. Como alimentação durante a prova só tinha mais um gel. A prova tinha que ser em autonomia. Bem diferente de como estamos “mal” habituados em Portugal.

Comecei a dosear o gel. Pensei que cada 1.5km podia dar um golinho, mais para me distrair que outra coisa. As ondas começaram a aumentar, às vezes tinha que parar para ver alguma canoa perto para alimentar aquela sensação de ser acompanhada. Olhava para cima para ver o monte Capanne, não sei porque, mas dava um certo alívio ver o topo da montanha, e um panorama diferente do marinho que nessa altura não estava nada amigável. Comecei a sentir na pele a história do mediterrâneo traiçoeiro, desse azul tão azul, de como é importante conhecer o lugar onde se nada, de como se o meu primo, que costuma andar por lá de barco de vela estivesse estado , se calhar me teria dado uns conselhos, perguntei-me porque me tinha inscrito aos 6k e não aos 4k, comecei a sentir os lábios áridos por causa do sal, a língua também a ficar seca.

Até os 4.5k aguentei-me, aqueles pensamentos meio bobos de auto-motivação tipo, se conseguir chegar a tia/avó/filho/o gato/mundo vão melhorar e vão conseguir certas metas, dessas cenas que não têm lógica e correlação nenhuma mas que nesses momentos acabam para ser algo em que queremos acreditar.

Depois disso foi só dureza, para combater o calor nas pernas por causa dos 24º do mar, alargava o fato de neopreno para a água entrar e refrescar, parava cada pouco, vinha a canoa ao pé de mim a dizer que faltava pouco. Até chegou um barco de motor onde um pai tinha deixado o filho bem novinho manobrar debaixo da sua alçada e pensei só mesmo em Itália e sei lá se foi essa cena inesperada e os dois a gritarem que faltava só a virada da ponta para entrar na baia que me deu a força final. Acabei com 6.4km nadados a dois minutos do cut-off. Fui de novo ao mar tirar o fato e chorei, pela tensão que nunca tinha provado no mar, pelo esforço e se calhar porque nadei finalmente na Ilha d’ Elba, na minha Toscana.

Como disse o professor de natação de Iésolo, Giovanni, esta prova era para muitos mas não para todos.

Para o ano gostava de ir lá outra vez.

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